Tráfico humano, exploração sexual e pedido de desculpas: a história das ‘polacas’ no litoral de SP | Santos e Região

Após quase 100 anos, as “polacas”, judias traficadas do Leste europeu para serem exploradas sexualmente na Baixada Santista, região do litoral paulista, receberam um pedido de desculpas da comunidade judaica. A maioria delas morreu e foi sepultada a partir de 1929 no Cemitério Israelita de Cubatão (SP), que foi restaurado por uma associação judaica.

De acordo com o historiador Guilherme Faiguenboim, de 74 anos, que também é diretor da associação Chevra Kadisha, que restaurou o cemitério de Cubatão em convênio com a prefeitura, as polacas ficaram conhecidas entre 1850 e 1900. Conforme explica Faiguenboim, muitos judeus viviam no império russo, em áreas rurais e afastadas, em um período de empobrecimento dessa comunidade, e muitas famílias vinham da Polônia.

Ainda de acordo com o historiador, com a promessa de uma vida melhor, “cafetões” se apresentavam às famílias que tinham mulheres brancas, novas e “formosas”, pedindo-as em casamento, sem revelarem suas reais intenções. Após o matrimônio, eles diziam que estavam indo para a América do Sul, em busca de melhores condições. Contudo, chegando ao Brasil, essas mulheres eram direcionadas a locais com grandes portos, como Rio de Janeiro e Santos, para serem prostituídas.

Sem família, dinheiro ou qualquer apoio da comunidade local, essas mulheres passavam a trabalhar em bordéis, com seus maridos como cafetões, vivendo em condições precárias e sendo renegadas pelos demais judeus.

“Você tinha, morando nesses lugares, as polacas, que eram as prostitutas, e outros judeus, que trabalhavam com coisas mais aceitáveis para a época. Havia uma separação dentro da comunidade judaica, que não queria ser relacionada com o estigma das polacas”, conta.

Por conta da rotina de terem que se relacionar com dezenas de homens por dia, essas mulheres viviam muito pouco, por contraírem diversas doenças. Porém, por conta do desprezo da comunidade local, elas não eram aceitas em cemitérios judaicos.

Sepulturas do Cemitério Israelita de Cubatão foram restauradas pela Associação Cemitério Israelita de São Paulo – Chevra Kadisha — Foto: Divulgação/Prefeitura de Cubatão

Conforme explica Faiguenboim, apesar de renegadas e excluídas, essas mulheres nunca abandonaram os costumes da religião, e apesar da vida que levavam, tentavam manter as tradições e ensinamentos. “Eles [demais judeus] não permitiam que elas fossem enterradas nos cemitérios deles. Elas mesmas se organizaram e criaram um cemitério, sinagogas e alguns serviços sociais, que elas desenvolviam e mantinham”, relata.

Segundo o diretor da Chevra Kadisha, essas mulheres organizavam algumas atividades para arrecadar verba e manter essas instituições próprias, como peças de teatro, entre outras ações. Com isso, conseguiram fundar um cemitério onde pudessem ter um fim digno, em Cubatão.

“No cemitério de Cubatão, as últimas pessoas enterradas lá foram no início de 1950. Elas mantinham os costumes judaicos, apesar de todo o preconceito. Alguns túmulos dessas polacas estão em cemitérios públicos comuns, e neles constam lamentos e palavras muito duras, que mostram um pouco de como se sentiam”, esclarece.

Faiguenboim conta que, conforme estudos históricos, estima-se que aproximadamente pouco menos de 1.000 pessoas tenham chegado ao Brasil para essas atividades, dentre polacas e cafetões, que também estão enterrados nos cemitérios criados por elas.

Local foi reaberto como um pedido de desculpas às mulheres judias traficadas exploradas no litoral de SP — Foto: Divulgação/Associação Cemitério Israelita de São Paulo – Chevra Kadisha

Faiguenboim conta que essa história era abafada e ignorada pela sociedade da época. Contudo, por volta de 1970, historiadores começaram a investigar e estudar esse fenômeno, a vida curta dessas mulheres, se esforçando para acabar com o repúdio da sociedade judaica, compreender esse problema e ajudar essas mulheres. Para isso, segundo ele, precisou nascer uma nova geração de judeus.

“Hoje, a comunidade judaica reconhece que errou com essas mulheres, que foram excluídas, por não estenderem a mão a elas. Mas, naquela época, não só os judeus, mas toda a sociedade tinha uma mente mais fechada para esse tipo de atividade. Acontece que deveriam ter tentado ajudar, e não excluir essas mulheres, que foram vítimas”, diz.

Em 1996, em condições precárias, o Cemitério Israelita de Cubatão, que é chamado de “Cemitério das Polacas”, foi assumido pela Associação Cemitério Israelita de São Paulo – Chevra Kadisha, que restaurou as sepulturas e passou a preservar o terreno. Em 2019, o local foi reaberto para visitação, em uma cerimônia carregada de emoção, representando um pedido de desculpas a tantas mulheres exploradas, rejeitadas e silenciadas pela história.

“Elas lutaram acima das forças delas para se manterem judias e terem um final digno, então, elas mereceram esse pedido de perdão. Devíamos isso a elas”, conclui.

Cemitério das Polacas, em Cubatão, foi restaurado, tombado como patrimônio histórico em 2010 e reaberto ao público — Foto: Divulgação/Prefeitura de Cubatão

A maioria das mulheres judias traficadas para o litoral de São Paulo foi enterrada no Cemitério Israelita de Cubatão, localizado na Rua José Vicente, 327, no bairro Sítio Cafezal. Após quase 100 anos, o local foi restaurado e aberto ao público como um pedido de desculpas da comunidade judaica.

O Cemitério das Polacas foi fundado pela Associação Beneficente e Religiosa Israelita de Santos em 1929. Em agosto de 2010, o campo onde o cemitério está localizado foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Cubatão (Condepac), tornando-se o primeiro cemitério israelita do país a ser considerado patrimônio histórico.

Segundo a associação Chevra Kadisha, o interesse histórico pelo pequeno cemitério se deve ao fato de que as integrantes da comunidade judaica que atuavam na prostituição viviam sem abandonar as tradições e costumes judaicos.

Em 2019, após décadas em estado de total abandono, sofrendo degradação pela ação do tempo e de vândalos, o cemitério foi totalmente restaurado pela Associação Israelita, em convênio com a Prefeitura de Cubatão, preservando a importância histórica e cultural das sepulturas feitas em cimento, granito e mármore, e suas inscrições em hebraico.

Segundo a prefeitura, cerca de 69 lápides, onde estão enterrados os corpos de 54 polacas e 15 homens, todos imigrantes do Leste europeu, foram restauradas. Por meio do convênio, investigações conseguiram identificar a maioria dos sepultados, restando apenas seis corpos não identificados, provavelmente de mulheres, devido à localização das sepulturas.

A Prefeitura de Cubatão é responsável pela manutenção e preservação da infraestrutura do cemitério e de seus acessos, além da divulgação da importância histórica e cultural e o monitoramento da visitação.

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