Suman fala em retomar projetos e em cuidar da ‘Pérola do Atlântico’ no retorno à Prefeitura de Guarujá: ‘corrigiram um equívoco’ | Santos e Região

O prefeito Válter Suman (PSDB) reassumiu o cargo em Guarujá, no litoral de São Paulo, após mais de 70 dias afastado, desde 29 de março. Antes mesmo de pisar no Paço Municipal, o chefe do Executivo conversou com repórteres e disse estar ‘muito feliz’ em voltar à função. Ele também agradeceu a Deus, a família e aos advogados por possibilitarem o momento. O político é investigado na 2ª fase da Operação Nácar da Polícia Federal, que apura possíveis fraudes em contratações nas áreas da Saúde e da Educação.

Retornando após um julgamento por unanimidade do Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde cinco ministros corrigiram um equivoco que promoveu as novas medidas cautelares e meu afastamento da gestão”, disse Suman, que chegou à prefeitura por volta das 10h30 desta segunda-feira (20).

De volta ao cargo, Suman não quis comentar a gestão e mudanças promovidas pela vice-prefeita Adriana Machado, que, durante o afastamento, esteve no comando de forma interina. Ele informou que se reuniria com o secretariado e que vai retomar o trabalho de zeladoria da “Pérola do Atlântico”.

A cidade não pode parar e a minha história é de trabalho. Estamos aqui para dar continuidade tanto nos projetos como no cuidar da nossa querida Guarujá a Pérola do Atlântico. Pra quem teve uma reeleição aprovada por 80% dos votos da cidade, isso requer o cuidar da cidade”.

Sem tornozeleira e outros benefícios

Na última sexta-feira (17), Suman foi até a sede da Polícia Federal, em Santos, e retirou a tornozeleira eletrônica. Com a decisão do STJ, além de retirar o dispositivo do tornozelo e voltar ao cargo e terá livre acesso a prédios da Prefeitura de Guarujá. Vale lembrar que o chefe do Executivo e esposa Edna Suman eram monitorados desde o começo de maio.

Ao mesmo tempo que a decisão do STJ derruba algumas determinações da Justiça Federal, outras são mantidas: está proibido de ter contato com outros investigados; deve comparecer bimestralmente em juízo; prestar esclarecimentos quando solicitados durante o curso das investigações; proibido de ausentar-se do Estado por mais de cinco dias sem autorização, proibido de deixar o país. Ele também deve entregar o passaporte.

Adriana Machado, que assumiu a prefeitura desde o afastamento de Suman, deve voltar ao cargo de vice-prefeita e às atividades como médica e servidora pública municipal.

Prefeito de Guarujá, Válter Suman, retirou a tornozeleira eletrônica na sede da Polícia Federal, em Santos — Foto: Marcela Pieroti/g1 Santos

Uma Comissão Processante foi formada na 9ª Sessão Ordinária da Câmara Municipal para analisar um novo pedido de impeachment contra o prefeito, que também foi protocolado pelo engenheiro José Manoel Ferreira Gonçalves.

Sobre a questão, Suman ressaltou que os vereadores fazem o trabalho deles e que, agora, é aguardar. “Da mesma maneira que houve a primeira negativa do impeachment […]. Estamos serenos e aguardando o rito normal que a câmara deve seguir”, disse o prefeito, que reforçou o fato de o STJ ter julgado “por unanimidade” a queda das medidas cautelares.

Na mesma sessão, também foi confirmado que serão integrantes da Comissão Processante os vereadores Santiago dos Santos Angelo (PP) – como membro da comissão -, Carlos Vargas (PTB) – como relator -, e Fernando Martins Peitola (MDB) – como presidente.

O vereador Santiago é citado no mesmo inquérito da Polícia Federal em que o prefeito é investigado, e, após ser sorteado, tentou declinar da participação, mas foi impedido pela Câmara.

Válter Suman (PSDB) seria ouvido durante Comissão Processante, nesta segunda-feira (13), na Câmara Municipal de Guarujá, SP — Foto: Leandro Guedes/g1

No dia 13 de junho, Suman era aguardado para depor na Câmara Municipal de Guarujá. No entanto, ele não compareceu presencialmente para a oitiva, mas protocolou sua defesa por meio de um advogado.

Em 6 de junho, outros dois investigados pela mesma operação seriam ouvidos na Câmara Municipal de Guarujá, porém, Celso Roberto Bertoli Junior e Hugo Passos não compareceram à oitiva. A justificativa para o não comparecimento foi a mesma: o juiz teria determinado que os suspeitos não entrassem em repartições públicas.

Celso Roberto Bertoli Junior é ex-diretor de Compras, Licitações e Acompanhamento de Contratos, que, de acordo com a Polícia Federal, era a pessoa que operacionalizava a parte técnica das contratações fraudulentas. Os agentes políticos negociam os contratos e ele operacionalizava para que a contratação fosse direcionada para as empresas corruptoras.

Já Hugo Passos é ex-secretário de Cultura. Segundo a PF, ele era responsável por armazenar parte do dinheiro ilícito arrecadado e realizar pagamentos a mando do prefeito afastado Válter Suman. Ele também seria o responsável pela empresa em que estão registrados dois carros de luxo de Suman.

Carreata contra o retorno

Um grupo de moradores realizou uma carreata, na manhã de sábado (18), em Guarujá, contra o retorno de Válter Suman (PSDB) ao cargo de prefeito da cidade. A população pede pelo impeachment do prefeito.

Moradores de Guarujá realizam carreata contra o retorno do prefeito Válter Suman ao cargo

Moradores de Guarujá realizam carreata contra o retorno do prefeito Válter Suman ao cargo

A carreata foi convocada pelo autor do pedido de impeachment na Câmara Municipal, o engenheiro José Manoel Ferreira Gonçalves. Ele utilizou as redes sociais para chamar a população para ir às ruas. O protesto começou, por volta das 11h, na Praça 14 Bis, em Vicente de Carvalho, e seguiu até a Praça Horácio Lafer, na Enseada. O percurso durou cerca de duas horas.

Cerca de 15 carros partiram de Vicente de Carvalho e outros veículos se juntaram à carreata no caminho até o Centro. Nos veículos, haviam faixas com dizeres como: “Fora Sumam” e “Guarujá pede socorro”.

Nos veículos que participaram da carreata haviam faixas com dizeres como: “fora Sumam” e “Guarujá pede socorro” — Foto: Reprodução TV Tribuna

2ª fase da Operação Nácar

A Comissão foi criada após o chefe do Executivo municipal ser alvo da 2ª fase da Operação Nácar, que é conduzida pela Polícia Federal. A investigação tem como objetivo o combate a possíveis crimes de corrupção, desvios de recursos públicos e outros crimes correlatos envolvendo verbas federais.

Foram cumpridos 55 mandados de busca e apreensão em Guarujá, Santos, São Vicente, São Bernardo do Campo (SP), Carapicuíba (SP), São Paulo (SP), Campos do Jordão (SP) e Brazópolis (MG). Dentre as medidas determinadas pela Justiça Federal, estão o bloqueio de mais de R$ 110 milhões de bens e valores de envolvidos, além do afastamento de ocupantes de cargos comissionados e eletivos de suas funções.

Os suspeitos podem responder pelos crimes de peculato, corrupção ativa e passiva, fraude em licitação, organização criminosa e lavagem de dinheiro. As penas, se somadas, podem variar de 12 a 46 anos de prisão.

A Prefeitura de Guarujá informou que, ante o afastamento liminar de Suman, a vice-prefeita, Adriana Machado, assumiu provisoriamente a função de prefeita em exercício.

A Justiça Federal já determinou que Suman deve usar monitoração eletrônica, assim como alguns dos outros investigados da 2ª fase da operação. Além disso, ele já foi afastado do cargo.

Câmara aprovou abertura de nova Comissão Processante para análise de pedido de impeachment do prefeito de Guarujá, SP — Foto: Luciana Moledas/g1

1ª Comissão Processante e prisão

O prefeito e o ex-secretário de Educação, Marcelo Nicolau, chegaram a ser presos na primeira fase da operação, em setembro de 2021, mas ambos tiveram a liberdade provisória concedidas pela Justiça.

Uma primeira Comissão Processante foi criada em 2021 para analisar o processo de impeachment de Suman. Em 3 de dezembro, Suman protocolou sua defesa na Câmara Municipal.

A Comissão havia sido instaurada após uma denúncia formulada pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT), também por intermédio de José Manoel Ferreira Gonçalves – que era presidente à época do partido -, a qual pedia pela apuração de eventuais irregularidades relacionadas a contratos firmados entre empresas privadas e a prefeitura na área da Saúde.

Esta primeira Comissão foi formada pelos vereadores Fernando Martins dos Santos (MDB), Juninho Eroso (PP) e Sirana Bosonkian (PTB). Porém, em 16 de dezembro, Suman foi absolvido no processo de impeachment que enfrentava. A sessão de julgamento durou cerca de 20 horas no Plenário da Câmara Municipal. Ao todo, 11 vereadores votaram contra, e cinco a favor do afastamento.

Imagens obtidas pelo g1 mostram conversas trocadas em um aplicativo de mensagens entre Válter Suman, sua esposa, Edna Suman, e supostos beneficiários de um possível esquema de desvio de dinheiro público apurado pela Polícia Federal.

Os prints das conversas constam no inquérito da Polícia Federal, que foi obtido pela TV Tribuna, afiliada da Rede Globo, e mostram o chefe do Executivo municipal falando da movimentação de alta quantia em dinheiro com outros políticos, familiares e conhecidos, todos investigados durante a operação.

Imagens mostram conversas entre prefeito de Guarujá, esposa e beneficiados em fraudes

Imagens mostram conversas entre prefeito de Guarujá, esposa e beneficiados em fraudes

A investigação também apurou os gastos do prefeito e da esposa nos últimos dois anos. De acordo com planilha e extratos de declarações que acompanham o processo, o casal gastou mais de R$ 1,5 milhão apenas em uma loja de roupas. E em duas lojas de joias, teriam gasto mais de R$ 1 milhão.

Além disso, segundo a PF, recentemente o casal comprou dois apartamentos em Campos do Jordão (SP), com custo aproximado de R$ 700 mil. Os imóveis estão registrados em nome dos filhos, e em um deles, foram gastos R$ 300 mil em reformas.

A investigação da PF aponta a existência de, pelo menos, duas organizações criminosas, que atuavam e ainda atuam na prefeitura, desviando recursos públicos mediante fraude em contratações públicas e lavagem de dinheiro.

Segundo a PF, a primeira organização criminosa seria chefiada por Suman e pela esposa dele, e era operacionalizada pelo então secretário de Educação, Marcelo Nicolau. A investigação aponta que eles, junto com outros envolvidos, fraudavam contratações públicas, negociando vantagens indevidas com empresários.

A Polícia Federal detectou, também, que os processos de licitação eram fraudados por meio de direcionamento, dispensa e até contratação emergencial, fora do previsto na lei. Segundo a PF, outras pessoas eram usadas para ocultar os valores recebidos, e até pessoas contratadas pela prefeitura eram laranjas.

Além disso, as investigações apontam que a prefeitura tinha o apoio do Legislativo. Os acordos seriam realizados mediante pagamento de vantagens indevidas, em espécie, ou com o loteamento de cargos em empresas que prestam serviço à prefeitura.

A segunda organização criminosa seria chefiada por Almir Matias. A investigação aponta que as contratações firmadas entre o empresário e a prefeitura eram superfaturadas, e a organização repassava recursos por serviços não prestados para empresas fantasma, algumas até controladas por Matias.

Marcelo Nicolau seria, então, o homem que cuidava do recebimento e repassava os recursos para o prefeito e a primeira-dama. Com ele, a PF encontrou contratos já com o valor da propina inicial de negociação e o quantitativo em percentagem referente às vantagens indevidas a serem pagas mensalmente pelas empresas.

Para chegar aos suspeitos, a Polícia Federal analisou documentos, computadores e celulares de todos os envolvidos, após a primeira fase da operação, em setembro de 2021.

Em nota, o advogado José Eduardo dos Santos, que representa Almir Matias e a esposa dele – também investigada -, afirmou que acompanha as investigações. O g1 tentou localizar os advogados dos outros investigados, mas não teve retorno.

Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão na casa do prefeito de Guarujá, Válter Suman — Foto: Nina Barbosa/g1

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