Mulheres gordas debatem o ‘direito de existir’ em projeto feito em SP: ‘era gordofóbica comigo mesma’ | Santos e Região

“Eu sofro gordofobia desde a infância. Inevitavelmente, para falar da minha história, eu tenho que falar da gordofobia”. O relato é da estudante de Produção Multimídia Mariana Mussi, de 37 anos, que como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) decidiu produzir um documentário mostrando a realidade dela e de outras mulheres que sofrem diariamente com um problema em comum, a exclusão.

Apesar de ser nascida e criada em Santos, no litoral de São Paulo, Mariana nunca teve muitos amigos. Pelo contrário. Pessoas que não aceitavam um corpo diferente do imposto como “correto” pela sociedade a agrediram física e verbalmente, desde a infância.

“Sempre fui gorda, e sempre enfrentei isso. A primeira vez que senti a gordofobia foi na escola, porque os colegas não me aceitavam, as pessoas não mediam o que falavam. Eu não tinha voz, não tinha apoio, sempre sofri agressões físicas e verbais. Eu gostava do meu corpo, me via saudável, mas não era aceita”, relata.

Mariana lembra que não podia fazer esportes, por ser barrada pelos professores, e não publicava fotos em suas redes sociais, para evitar comentários ofensivos. “O que me persegue é que eu me sinto uma pessoa muito sozinha. Abandonei duas faculdades, passei um período de depressão muito grande, e não saía de casa, porque eu sabia que, se eu fosse na esquina e sentasse para comer um lanche, teria gente rindo de mim, então, eu desisti”, desabafa.

A estudante teve o primeiro contato com o cinema em 2017, em um laboratório de curtas-metragens, onde produzia roteiros, mas sempre que sugeria falar sobre a gordofobia, era barrada. Em 2020, a moradora de Santos decidiu ingressar novamente em uma faculdade, e iniciou o curso de Produção Multimídia. Em 2021, como proposta de TCC, ela novamente sugeriu como tema a luta contra a gordofobia, e desta vez, seus amigos abraçaram a causa.

Mariana Mussi, de 37 anos, relata situações de preconceito e exclusão devido ao peso em Santos, SP — Foto: Arquivo Pessoal

O documentário “Gordos não vão para o céu – Qual o poder de escolha de uma pessoa gorda?” conta a história de três mulheres gordas, incluindo Mariana, e o esforço que fazem para serem aceitas em uma sociedade regida por padrões rígidos de aparência.

A produção sugere uma nova perspectiva da pressão estética sobre os corpos acima do chamado “peso ideal”. A obra chama a atenção para a desumanização, e até a ausência de direitos básicos, como tratamento hospitalar e representatividade desse grupo.

Para a diretora da produção, o documentário, que também apresenta a história de uma jornalista que trabalha como confeiteira, por não conseguir oportunidades na área, e de uma professora que sonha em ser mãe, foi uma maneira que encontrou de se expressar e, finalmente, ser ouvida. Ela visa aumentar o debate sobre esse tema, e estimular a criação de mais leis que penalizem esse preconceito.

“Eu só tive minha primeira roupa na moda em 2004. Me vestia com roupas de homem, porque não tinha roupas femininas do meu tamanho. A gente não tem nem a dignidade de ter uma roupa. O que quero com esse documentário é propor a reflexão e o debate sobre esse assunto, e mostrar o que passamos diariamente. Hoje, eu tenho essa força para falar”, diz Mariana.

Documentário conta a história de mulheres que sofrem diariamente com a pressão dos padrões de beleza em Santos, SP — Foto: Reprodução

Mesmo crescendo ouvindo ofensas, Mariana conseguiu se fortalecer, após ver um movimento social na internet focado na aceitação de todos os corpos, independentemente de tamanho, forma, tom de pele, gênero e habilidades físicas. Além disso, o carinho e o afeto recebidos em seu primeiro relacionamento amoroso, aos 35 anos, a ajudou no processo de aceitação.

“Eu me culpava, era gordofóbica comigo mesma, porque era instruída a não me aceitar. Mas, com esse movimento, me identifiquei, e vi que não estava sozinha, e que tenho o direito de existir. Sempre se pensou que somos algo engraçado, usam nosso sofrimento para fazer piadas”, conta.

Mariana acredita que a gordofobia seja causada, principalmente, pela repulsa que as pessoas sentem pelo que é diferente, e que isso possa ser combatido normalizando a existência de diferentes corpos. “O diferente sempre vai causar choque. A mídia também expõe um padrão normativo de como as pessoas devem ser, isso também é gordofobia”, conclui.

De acordo com o advogado Alex Sandro Ochsendorf, a gordofobia em si não é um crime, mas é englobada em crimes contra a honra, que consistem em situações onde a vítima se sente constrangida ou coagida diante de comentários sobre suas características.

“Especificamente, a gordofobia não é um crime, é uma espécie de gênero de ofensa. Quando você ofende alguém pela característica física, você está cometendo um crime contra a honra. A partir do momento em que a manifestação do pensamento de uma pessoa coloca a vítima em uma situação de desconforto, diminuindo ela, a honra dela, isso já é considerado crime contra a honra”, explica.

A pena prevista para esses crimes é de seis meses a dois anos em casos de calúnia; três meses a um ano por difamação; e um a seis meses por injúria. Quando os crimes acontecem por meio de redes sociais e mídias eletrônicas no geral, a pena é triplicada.

Nos casos onde a gordofobia envolve agressões físicas, o agressor responderá por dois crimes, lesão corporal e crime contra a honra. No entanto, no Brasil, conforme esclarece Ochsendorf, não é comum os responsáveis pelas ofensas serem presos, apenas em casos mais graves, onde a liberdade do infrator apresenta riscos à integridade física da vítima.

Especialista fala sobre os crimes contra a honra, que englobam a gordofobia — Foto: Reprodução

Para o advogado, as leis do país em relação aos crimes contra a honra poderiam ser mais severas, mas não com prisões. “Deveria haver instrumentos nas leis que dessem punições mais severas economicamente, e outras medidas, como ser impedido de ter acesso à internet e de entrar em alguns lugares, para que essa pessoa sinta, realmente, a consequência do crime cometido”, conta.

Ochsendorf ainda explica que, para denunciar esse tipo de crime, que é uma ação penal privada, não basta registrar um boletim de ocorrência na Polícia Militar ou Civil. É necessário manifestar o desejo de processar o agressor, realizando uma queixa crime, que só pode ser feita por meio de um advogado ou pela Defensoria Pública, no prazo de seis meses.

Esse prazo para manifestar o desejo de entrar com um processo na Justiça passa a contar após a vítima tomar conhecimento das ofensas. Ou seja, se as ofensas foram feitas, por exemplo, pela internet, mas a vítima só tomou ciência dois anos depois, ela ainda pode processar o agressor pelos próximos seis meses.

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