Maestro brasileiro quebra paradigmas e se destaca com música clássica no exterior: ‘poucos negros no cenário’ | Santos e Região

Um maestro e compositor natural de Santos, no litoral de São Paulo, vem se destacando no cenário da música clássica. João Rocha, de 38 anos, atualmente mora nos Estados Unidos e está montando sua própria orquestra.

Desde quando tinha cerca de sete anos, João já estudava música. Aos 15, teve a oportunidade de se apresentar em um palco pela primeira vez, em uma casa noturna em Santos. Desde então, não parou mais de tocar.

De acordo com ele, o pai sempre foi apaixonado por samba, então, o estilo musical faz parte de suas raízes. “A influência do meu pai se estendeu para a casa da minha avó. Meu tio mais novo tocava cavaquinho e outros instrumentos de corda, e me ensinou a tocar. A minha mãe, por sua vez, era completamente apaixonada pelo movimento da tropicália, e essa influência também tinha a ver com a música clássica, porque ela apreciava”, afirma.

Quando João decidiu que aprenderia a tocar cavaquinho, a mãe o colocou em um conservatório, e foi lá que a alfabetização musical dele teve início, a partir de repertórios clássicos. Depois, em 1998, participou de um concurso de paródias na escola, e levou o cavaquinho para se apresentar. Em seguida, chegou a montar uma banda.

Tempos depois, começou a se interessar ainda mais pela música clássica. “Com 18 anos, era a fase que eu estava escolhendo o vestibular, e eu já sabia que queria música. Contudo, a sugestão da minha mãe foi de eu ter um emprego que me desse uma estabilidade financeira um pouco maior, e me dedicar à música nos tempos livres. Naquele momento, aquilo fez bastante sentido para mim”, lembra.

João Rocha relata que, aos poucos, só aumentou seu interesse pela música clássica — Foto: Arquivo Pessoal

Como o pai tinha uma loja de carros, ele optou por fazer uma faculdade de administração de empresas, e foi aprovado no vestibular. Já cursando a universidade, ele iniciou estágio em um banco, chegando a ser gerente da empresa.

Porém, após menos de um ano no cargo, ele percebeu que queria, realmente, se dedicar à música. “Os clientes viravam as costas e eu já ficava ouvindo música clássica. Comecei a perceber que estava atendendo às pessoas, quando na verdade queria trabalhar com música. Eu já havia parado com a faculdade de administração, e resolvi sair do banco. Foi um choque para todos, principalmente para a minha mãe. Mas, deixei tudo aquilo para trás para me dedicar à música”, conta.

Foi então que Rocha decidiu se graduar em regência, já que já estava envolvido com corais, nos quais se apresentou. Desde então, passou a se destacar cada vez mais, e fazer mais cursos na área. Chegou a ganhar uma bolsa do governo alemão para estudar fora do país, indo para lá em 2014.

O maestro compôs a Sinfonietta Concertante, em homenagem ao Mês da Consciência Negra, para a Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo (USP), celebrando os compositores negros brasileiros.

De acordo com João, quando a obra foi ensaiada, no início de novembro do ano passado, todos da Orquestra da USP o elogiaram, e o concerto teve grande repercussão. A obra foi, inclusive, apresentada de novo. O profissional explica que é difícil uma composição já estreada ser tocada mais de uma vez no mesmo ano, e que está sendo procurado por outras orquestras, nacionais e do exterior, interessadas em tocar a Sinfonietta.

Conforme Rocha, o mercado clássico é mundialmente racista, formado, em sua maioria, por pessoas brancas.

Maestro vem se destacando cada vez mais no cenário da música clássica — Foto: Arquivo Pessoal

“No século 21, maestros negros regendo grandes orquestras, principalmente aqui nos Estados Unidos, se tem dois, só. Então, isso é muito sério. Há poucas pessoas negras neste cenário. A questão do racismo é sempre presente, sempre existiu. Nunca fui maltratado por ninguém, mas se você juntar os números, você entende essa realidade. O racismo pode não ser escancarado, mas vemos que ainda falta representatividade”, afirma.

O maestro tem um projeto com a esposa, em que compõem músicas clássicas juntos, com temáticas variadas, incluindo sobre personagens da história negra. Juntos, eles já tocaram em diferentes países, em clubes tradicionais.

Rocha conta, também, que tem como objetivo se vincular a atividades de cunho educacional, para ensinar mais sobre a música clássica para leigos. Para isso, está buscando oportunidades e espaços para o projeto.

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