Mães de 1ª viagem criam projeto sobre os desafios do isolamento na pandemia | Santos e Região

“Tive meu filho e dois dias depois começou a quarentena no país. Parecia um cenário de filme, foi desesperador”. O desabafo é da atriz e produtora audiovisual Juliana Fernandes da Silva, de 24 anos. Viver a maternidade em meio à pandemia foi um grande desafio para a moradora de Praia Grande, no litoral de São Paulo. Ao postar um desabafo nas redes sociais, surgiu a ideia de começar o projeto ‘Filhos da Pandemia’, uma rede de apoio a mulheres que se tornaram mães nesse período.

Juliana engravidou ainda em 2019, e passou todo o período de gestação sem pandemia, podendo encontrar familiares e amigos. O bebê nasceu em março, no dia 18, e o parto ocorreu como esperado para a jovem. Entretanto, dois dias depois, a quarentena teve início no país. Juliana saiu do hospital já com medo e precisando seguir o isolamento social com o bebê recém-nascido.

“Minha mãe ficou com a gente, e não tínhamos visita. Só minha mãe e o pai dele traziam as coisas do mercado, mesmo assim, tínhamos medo. O tempo não passava do jeito que devia passar, meu filho quase não pegava sol no apartamento, e o que eram 24 horas pareciam três dias”, relembra.

Juliana começou projeto após postar desabafo sobre ser mãe em meio à pandemia — Foto: Arquivo Pessoal

O isolamento, explica, potencializou todos os sentimentos desse período. Juliana relata que a volta do hospital e a adaptação com o recém-nascido foram difíceis. Muitos parentes só conheceram o bebê depois de meses. Atualmente, o pequeno Eduardo tem mais de 1 ano, e mesmo assim muitos familiares e amigos não o conhecem. Passar por essa situação e chegar ao aniversário do bebê com uma piora da pandemia foi o mais frustrante para a jovem.

“O que frustrou é que, agora, está bem pior. Foi muito triste mesmo, porque a gente vinha se programando para uma celebração. Acabou que eu fiz um bolinho em casa para os avós, morrendo de medo. Mas, o pior não é minha situação, porque tem muita gente perdendo parentes. Ver tudo isso, observar que as pessoas não estão levando a sério, é frustrante. Estamos passando por isso sem medidas dos governantes, é uma dor em vão”, desabafa.

Por ser produtora audiovisual, Juliana postou um vídeo nas redes sociais com um desabafo, como mãe. Com o alcance e uma série de comentários, ela decidiu criar o projeto ‘Filhos da Pandemia’, uma rede de apoio onde mães podem desabafar e conversar. Na página nas redes sociais, ela fala sobre os desafios e coloca os desabafos de outras mulheres. “Quero usar o canal como conscientização e um lugar onde a gente possa gritar tudo que estamos sentindo”, finaliza.

Uma das mães que integram o grupo, e que deu um depoimento sobre a maternidade, é a fotógrafa Beatriz Priscila Santos Paulino, de 23 anos. Ela também descobriu a gravidez em 2019, e conseguiu fazer o pré-natal e duas ultrassonografias antes que tudo ficasse fechado por conta da pandemia.

Com familiares em outras cidades e até outro estado, o principal desafio foi a solidão, viver a gravidez e a maternidade em isolamento. Beatriz não teve a chance de fazer um chá de bebê, e passou boa parte da gestação longe dos entes queridos. O dia do parto foi um dos mais desafiadores, já que não podia ter as pessoas importantes por perto e estava prestes a dar à luz.

“Fiquei internada um tempo sozinha, meu esposo ia para me ver, e caí no choro quando descobri que ele não podia dormir comigo. Era uma solidão sem fim. Mas, ainda consegui que minha avó me acompanhasse no dia do parto”, relembra.

Beatriz relata solidão em meio à pandemia e adaptação com maternidade — Foto: Arquivo Pessoal

A mãe de Beatriz passaria o pré-natal e o parto com ela, mas, por morar longe, não foi possível. Essas dificuldades, e o medo da pandemia, mexeram com a jovem. “Fiquei com o emocional abaladíssimo, eu chorava muito, era tristeza misturada com medo. Tudo aquilo que já acontece na vida de uma mãe de primeira viagem foi em dobro”, conta.

A fotógrafa relata que o parto foi tranquilo, mas, por conta da pandemia, 80% da família ainda não conhece o bebê, que completou 1 ano em julho. Para ela, é frustrante não poder comemorar com quem ama. “Sempre planejei ser mãe, fazer chá revelação, primeiro ano do bebê, tinha muitas expectativas”, conta.

Além da solidão, o retorno ao mercado de trabalho é outra questão para a jovem. Com poucas chances de voltar a fotografar, e sem os parentes próximos, ficar sem atuar como antes é algo que mexeu com a autoestima. No projeto, ela encontrou espaço para desabafar sobre essa dificuldade. “É frustrante como profissional, como mãe e como mulher. Hoje, aprendi que ainda não podemos criar muitas expectativas, enquanto a pandemia está desse jeito”.

Camila relata desafios que passou no período de isolamento — Foto: Arquivo Pessoal

Para a tatuadora Camila Stephanie Gonçalves, de 26 anos, os primeiros dias sozinha com o filho pequeno foram muito desafiadores. Moradora de Praia Grande, no início da pandemia, ela se mudou para São Paulo, onde o marido trabalhava. Ela deu à luz na capital paulista, e precisou lidar com o início da maternidade contando com a ajuda do esposo e da internet.

“Foi muito difícil ficar sozinha com ele, você não sabe por que a criança está chorando. Aos poucos, fui me achando, mas o medo assusta no começo”, relata. Os primeiros meses do pequeno Apollo foram passados em um apartamento, apenas em contato com os pais. Camila explica que nem a mãe dela ia ao apartamento, já que ela temia o contágio.

Após lidar com os primeiros seis meses do bebê sozinha, ver o condomínio passar por um surto de Covid-19 e lidar com os desafios desse período, ela voltou para a cidade do litoral. Camila conta que o marido perdeu o emprego e a ajudou em boa parte desse período, mas ambos voltaram para o município onde ela tem mais clientes e poderia atuar.

A mudança brusca, entretanto, foi positiva para o bebê. Hoje, perto de completar 1 ano, ele já teve contato com familiares, de forma mais restrita e segura. Agora em uma casa, contando com mais espaço para brincar e interagir, Camila conta que percebeu um melhor desenvolvimento do bebê. Apesar disso, a distância dos parentes é motivo de tristeza.

“[A distância] é a parte mais difícil. A partir do momento em que a criança nasce, a gente sonha com festa, com se reunir. Eu não tive o chá dele, e não vou poder reunir minha família desta vez. A gente espera que melhore logo, para o levar para conhecer toda a família. Mas, infelizmente, nesse aniversário, vamos fazer desse jeito”, finaliza.

VÍDEOS: g1 em 1 Minuto Santos


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