Jovem recuperada de transtornos que a impediam de andar agora ‘voa’ para realizar o sonho de estudar Medicina em Portugal | Santos e Região

Gabriele Matos, de 21 anos, luta há três anos contra um transtorno alimentar que a deixou acamada e a fez parar os estudos para o vestibular de Medicina. Após meses de reabilitação para tratar a anorexia e fortalecer a musculatura, ela foi aprovada em uma universidade em Portugal. A viagem para realizar o sonho, inclusive, já está marcada para 6 de setembro.

A tão aguardada notícia chegou à estudante em 12 de agosto, com a publicação da lista de aprovados para a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP). “As expectativas estão bem altas e não vejo a hora de começar a viver o meu sonho. Todos dizem que me fará bem, pois vai preencher minha vida”, conta.

A estudante relembra, porém, que nem sempre viveu momentos de tanta esperança na vida. Em 2021, Gabriele passou por um tratamento intensivo vencer o transtorno alimentar que a acompanha desde os 19 anos, quando começou a fazer um curso pré-vestibular para o curso de Medicina.

Anorexia e distorção da imagem

Segundo a jovem, a carga horária do “cursinho” se estendia das 8h às 23h e, com isso, ela entrou em uma rotina de apenas estudar e dormir, o que tomou grande parte da vida dela e a fez engordar cerca de 30 kg.

No começo de 2019, a estudante afirma que tomou a decisão de “mudar” a própria vida e começou a fazer dietas e a cortar carboidratos.

Gabriele decidiu contar com o apoio da psicóloga que frequenta há anos para emagrecer. A profissional a instruiu a buscar apoio profissional para perder calorias, mas ela não a escutou e passou a emagrecer rapidamente.

“Quanto mais peso eu perdia, mais triste eu ficava. Não conseguia ver a diferença dentro do meu corpo”. Mais tarde ela descobriu, em consultas com a psicóloga, que sofria de distorção da imagem corporal.

Ela explica que foi perdendo peso e consumia cada vez menos calorias. A jovem comia somente frutas, pulava refeições e, às vezes, se alimentava somente com uma proteína ao longo do dia.

“A última vez que me pesei, antes de perder os movimentos, eu tinha quase 60 kg”, contou. A estudante explicou que sofreu grande perda de massa magra [massa muscular].

Em dezembro de 2019, Gabriele já tinha perdido cerca de 17 kg, mas ainda não se encontrava feliz com o próprio peso. Foi nesse momento em que os pais perceberam que algo estava errado. “Minha mãe estava desesperada comigo porque eu não me alimentava mais”.

Ela conta que a psicóloga a alertou: “disse que eu estava indo por um caminho errado. Por muitas vezes, eu briguei com ela por causa disso”.

Em janeiro de 2020, a profissional deu um basta na situação e informou aos pais que a jovem sofria de anorexia nervosa atípica.

Gabriele Matos, de 21 anos, lutou por três anos contra um transtorno alimentar que a deixou sem os movimentos das pernas e mãos. — Foto: Arquivo Pessoal

Como perdeu 34 kg de forma muito rápida, Gabriele passou a ter fraqueza nas pernas e braços. Apesar dos indícios, a psiquiatra da jovem afirmava que ela não estava em risco, já que não estava abaixo do peso ideal para a idade e altura dela.

A estudante revelou ter ficado assustada no dia em que ela caiu e não conseguiu mais se levantar ao tentar pegar um objeto na área de serviço. Ela precisou chamar a mãe, que estava em outro cômodo da casa, para ajudá-la a se erguer.

Em 14 de março de 2020, Gabriele acordou e não conseguia sequer levantar da cama. Ela precisou ficar em uma cadeira de rodas, chegou a ser levada ao hospital, porém, ela deveria seguir em tratamento. “Eu pegava a caneta e eu não sabia mais como segurar”, explicou.

De acordo com a jovem, apesar de ter parado de andar e de escrever ela não acreditava que eu estava doente o suficiente, justamente por não estar abaixo do peso.

A jovem foi obrigada a iniciar o acompanhamento, que continha, inclusive, um plano alimentar para recuperar as forças. “Eu tinha medo de pão, mas aos poucos foi sendo introduzido no meu dia a dia”.

Em seguida, Gabriele começou a fazer fisioterapia com uma ‘bicicletinha’ ergométrica, pesos de meio quilo e, inclusive, voltou a utilizar um caderno de caligrafia. Aos poucos, foi trabalhado o fortalecimento muscular dela. “Eu tive que aprender a andar de novo”.

Em novembro, a jovem já conseguiu se levantar e se movimentar sozinha, andando bem devagar. Ela começou a usar os talheres e a escova de dente, até que, em determinado momento, conseguiu correr novamente.

Apesar de ter parado de andar e de escrever Gabriele não acreditava que estava doente — Foto: Arquivo Pessoal

A jovem retornou ao curso pré-vestibular em setembro de 2021 e determinou que esse seria o último ano de cursinho que faria. “No começo não tinha muita vontade de assistir aula, queria ficar na cama e os pensamentos do transtorno alimentar me invadiam o tempo todo”. Ela contou com a ajuda de familiares e amigos para seguir em frente.

O processo de voltar ao mundo dos vestibulares precisou ser aprovado pela equipe médica que a acompanhava e pelos pais, mas, segundo ela, mesmo antes do consentimento, já se sentia “preparada”.

Como sempre teve o sonho de estudar fora, prestou provas para a FMUP em junho de 2022. As notas saíram e, agora, Gabriele está com viagem marcada para o dia 6 de setembro, quando finalmente vai realizar o sonho. “Agora vou estudar o que eu amo e conhecer pessoas novas”, finaliza.

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