Jovem da periferia de SP vira roteirista de filme estrelado por Rodrigo Santoro: ‘cheguei a chorar’ | Santos e Região

Thayná Mantesso tem só 24 anos, mas já deu passos importantes para sua carreira de roteirista. Da zona periférica de São Vicente, no litoral de São Paulo, a jovem teve a oportunidade de entrar para o mundo do cinema graças a um curso gratuito que fez no Instituto Querô. Agora, ela é uma das roteiristas do filme “7 Prisioneiros”, estrelado por Christian Malheiros e Rodrigo Santoro, já em exibição em uma plataforma de streaming.

Thayná relatou ao g1 que sempre estudou em escola pública, e que, apesar de vir de uma zona periférica, sempre teve uma boa estrutura familiar, o que foi muito importante para chegar onde chegou. “Eu nunca tive as melhores oportunidades e condições financeiras, mas tive essa estrutura. Estudei em colégios públicos, mas que me permitiram ter vivências e conhecer outros lugares e pessoas”, diz.

A história da roteirista começou no Instituto Querô, uma organização sem fins lucrativos de Santos que, desde 2006, utiliza o audiovisual como ferramenta de transformação social. “Eu tinha 16 anos, não sabia muito o que queria fazer da minha vida, me inscrevi e passei na seleção. Dentro das oficinas, temos aulas com vários profissionais de várias frentes do cinema. Demorei um tempo, mas me descobri no roteiro”, afirma.

Foi no filme “Sócrates”, também estrelado por Christian Malheiros, que ela teve seu primeiro contato com o roteiro. A obra conta a história de um jovem gay de 16 anos, que vivia sozinho com a mãe em um conjunto habitacional em São Vicente, mas teve a vida drasticamente transformada após a morte dela. “Esse contato ocorreu de uma forma muito orgânica, eu fui sugerindo algumas coisas no diálogo ao Alex [Alexandre Moratto – diretor do filme], e fomos escrevendo”, disse.

O cineasta brasileiro-americano Alexandre Moratto, com quem a jovem atuou em “Sócrates”, também é roteirista do filme “7 Prisioneiros”, e a convidou para fazer parte do projeto. “Quando eu li a história, me pegou pelo estômago. Foi muito difícil ler, no sentido de como ele era denso. Eu lembro de chorar, e que aquela história me pegou de uma maneira muito forte. A gente foi trabalhando nos próximos tratamentos [do roteiro] juntos”, diz.

O filme “7 Prisioneiros” conta a história de um jovem humilde que precisa escapar das garras de um traficante de pessoas. O longa é dirigido por Alexandre Moratto a partir de um roteiro dele e de Thayná, e já conquistou dois prêmios no Festival de Veneza 2021, sendo aclamado pela crítica estrangeira. Em novembro, foi lançado na Netflix, fazendo sucesso na plataforma.

“Eu esperava que o filme fosse ter uma boa repercussão, porque a história é densa, e o longa foi feito de forma muito responsável, por pessoas que se dedicaram muito. Toda a equipe fez um grande trabalho”, diz Thayná.

Para a roteirista, a profissão reflete o amor que ela tem por contar histórias de lugares que fizeram parte de sua realidade, e das pessoas que observa nas ruas. “Desde criança, eu gostava de criar histórias. E ser roteirista, para mim, é poder dar voz às histórias que vemos nas ruas, e geralmente não são contadas”, destaca.

Thayná afirma que, no filme “7 Prisioneiros”, tentou mostrar a realidade das más condições trabalhistas atuais. “É um filme que tem que ser indigesto. Foi muito duro de escrever, em vários momentos eu escrevia e dava até uma chorada. Porque é muito pesado e muito comum, e isso deixa tudo mais cruel”, diz.

De acordo com a roteirista, o longa aborda o tráfico de pessoas do interior do país para as capitais, onde trabalham em situação análoga à escravidão.

“Eu quero que as pessoas reflitam que, quando você vai a algum lugar e compra algo que custa R$ 5, e veio de outro país, não é possível que custe aquele preço, então, alguém está pagando muito caro por isso, está pagando com a vida. E o pior de tudo é que isso nem se limita a produtos baratos, nós vemos muitas lojas de produtos e roupas caras que têm esse histórico de trabalhos análogos à escravidão”, diz.

Ainda segundo a jovem, foi muito difícil ter contato com essas histórias e saber que é a realidade de muitas pessoas. “É muito duro saber que isso é atual, que continua ocorrendo. Mas, é muito importante poder contar essa história. O cinema ainda é meio elitista. Por exemplo, a maioria dos roteiros ainda é em inglês, então, para quem vem de zona periférica, é difícil o acesso. Eu ter tido a oportunidade pelo Querô mudou minha vida. Eu sei que trabalho com muitas pessoas que vieram de outra realidade, mas fui bem acolhida”, finaliza.

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