Jogador venezuelano é abandonado por empresário no Brasil, desiste do futebol e vira cantor gospel | Santos e Região

Um venezuelano de 33 anos foi abandonado em um aeroporto por seu empresário após vir ao Brasil para seguir o sonho de ser jogador de futebol. Atualmente, ele reside em São Vicente, no litoral de São Paulo, e agora tenta se estabelecer em sua carreira na música gospel.

Ao g1, Manuel Mogollón Díaz contou sua trajetória até chegar ao país, suas decepções com o esporte e suas expectativas na carreira musical. “Minha paixão pelo futebol começou quando eu tinha 10 anos, durante a Copa do Mundo de 1998. Quando o Brasil perdeu, chorei tanto, mas decidi que um dia gostaria de jogar bola”, disse. Aos 13 anos, Manuel começou a jogar futsal pelo Madeirense, onde disputou suas primeiras partidas.

Nascido em El Tigre, na região de Anzoátegui, na Venezuela, Manuel tinha uma vida considerada de classe média alta. Com 15 anos, ingressou na universidade para cursar Engenharia Mecânica. “Passei a jogar pelo time da universidade, assim, conseguia dividir as responsabilidades”.

Foi nessa mesma época que o jovem começou a ter contato com a igreja, e começou a participar do grupo de música do templo que frequentava. Ele participava de forma ativa dos louvores, já que veio de uma casa que tinha o costume de cantar em família. Mas, até o momento, nada poderia atrapalhar seu sonho de ser jogador de futebol.

Quando fez 22 anos, Manuel finalmente teve a oportunidade que sempre quis, foi chamado para atuar em um time brasileiro. O América Pontagrossense Futebol Clube o recebeu por pouco tempo, pois surgiu uma oportunidade de jogar no Real Minas, de Minas Gerais, local que, apesar de ter feito grandes amizades, o marcou de forma negativa.

Venezuelano desistiu do sonho de ser jogador de futebol após golpe — Foto: Arquivo Pessoal

“Se você quer ser jogador de futebol e tem empresário, então, ele te ajuda. Senão, você acaba passando por dificuldades, como eu. No começo, a gente comia arroz e linguiça, depois, passaram noites em que eu ia dormir só com um copo de café com leite. Às vezes, comia pão, às vezes, era só o café mesmo.

Após meses passando por peneiras e pequenos jogos em cidades como Congonhal, Pouso Alegre e Passo Fundo, no estado mineiro, Manuel retornou à Venezuela. “Quando eu voltei para casa, havia perdido 20 kg”.

Dois anos depois, Mogollón se deparou com mais uma chance de realizar seu sonho. “Um empresário brasileiro entrou em contato comigo, dizendo que tinha uma oportunidade para me levar a um time em Assunção, no Paraguai. Mas, primeiro, eu deveria encontrar ele no Aeroporto de Guarulhos. Eu sabia bem pouco de português para viajar sozinho, mas aceitei”, conta.

O empresário pediu que Manuel lhe adiantasse R$ 2.000 para os custos da viagem, mas, com medo de que fosse golpe, ele disse que entregaria somente quando chegasse ao aeroporto. “Eu saí da Venezuela e passei por 18 horas de viagem de ônibus até a fronteira, em Pacaraima [RR], depois disso, peguei uma van para me levar até o aeroporto em Boa Vista (RR), e de lá fui de avião até Guarulhos”, lembra.

Venezuelano desistiu do sonho de ser jogador de futebol após golpe — Foto: Divulgação

Manuel chegou ao aeroporto às 23h30, e esperou o empresário até às 4h, quando começou a ligar e a enviar mensagens ao empresário, que só lhe respondeu por volta das 6h. “Ele disse que o pai dele havia sofrido um ataque cardíaco, e que ele não poderia mais me ajudar. Ainda insisti, já que eu tinha saído do meu país acreditando naquilo que ele tinha me prometido. Um dia antes eu tinha falado com ele, e estava tudo certo. Perguntei para ele, então, o que eu faria, e ele nunca mais me respondeu”.

Manuel, assim, se viu em um impasse. Estava em um país sobre o qual sabia pouco, havia passado pouco tempo, um lugar onde sequer sabia o idioma, e com pouco dinheiro para se manter. “Na hora, entrei em desespero, não tinha quem me acudir. Eu fiquei com medo de ficar lá na multidão, então, eu fui ao banheiro e comecei a pedir ajuda a Deus. Na hora, lembrei de um colega que havia jogado futebol comigo em Roraima, mas que morava em São Paulo, e liguei para ele ir me resgatar”.

O colega era filho de um pastor de uma igreja evangélica, e Manuel passou cerca de um mês morando de favor em sua casa. “O futebol é um mundo muito sujo, mas, graças a ele, eu fiz essa amizade, que me ajudou quando eu mais precisei. Se eu não tivesse conhecido ele, eu estaria na rua”, diz.

Depois de ser abandonado no aeroporto, Manuel ficou traumatizado com o futebol, e desistiu do seu maior sonho até então. Passado um mês na casa do amigo que o salvou, Manuel foi para Santos, no litoral de São Paulo, para recomeçar.

Após esse episódio, sem dinheiro e emprego, o preconceito, e mesmo a zombaria, devido à sua origem, o perseguiram por algum tempo. “Sempre que podem, as pessoas tiram proveito do imigrante perdido”. O venezuelano passou cerca de quatro anos sem documentação alguma que fosse válida em território brasileiro, e isso dificultou sua busca por um trabalho formal. “Já vendi sorvete e açaí, lavei carro e até puxei malas no cais”.

Para cortar gastos, mudou-se para a cidade de Santos, e ficou de favor na casa de um amigo. “Sentia a rejeição e a desconfiança, mesmo que eu ajudasse com o pouco que tinha, fruto do meu trabalho suado”, relata.

Mesmo com as dificuldades, Manuel não se intimidou, e atualmente trabalha como conferente de carga em uma transportadora, além de fazer parte de trabalhos voluntários em igrejas, sempre cantando nos louvores durante os cultos.

Quando Manuel saiu da Venezuela, a vida de sua família ainda era estável, porém, há algum tempo, a situação para eles mudou. Para ele, mesmo com tantas dificuldades, o tempo de sua família se mudar já passou. Agora, fica a saudade e a tristeza de não poder visita-los. “Desde quando fui visitar minha família antes de me casar, há oito anos, nunca mais vi minha família”, lamenta.

“Eu estava muito preocupado com o que estava acontecendo na Venezuela, e com a situação da minha família. Lá, eles passam por muitos problemas com alimentos, se um dia o pão está a R$ 3, no dia seguinte já está R$ 5”, relata.

Segundo Manuel, naquele momento, ele foi “falar com Deus”, e pensou que tudo o que precisava estava no mundo espiritual. “Eu comecei a escrever uma música que fala sobre eu não conseguir ajudar os meus pais como eu gostaria, porque sempre quis enviar dinheiro para a minha família, mas infelizmente nunca consegui. Eu fui falar com Deus, e pedir ajuda por eles. Na hora, eu peguei o violão e comecei a tocar e a escrever”, lembra.

Venezuelano desiste do sonho de ser jogador de futebol após golpe para seguir carreira na música gospel — Foto: Paloma Costa

Durante uma conversa com sua esposa, ela o aconselhou a começar um canal no YouTube e uma conta no Instagram, para divulgar suas músicas. Em outubro do ano passado, um amigo de Manuel e sua família o ajudaram a bancar o videoclipe da música.

Em janeiro deste ano, Manuel finalmente conseguiu gravar seu primeiro videoclipe, chamado “Nosso Lugar”. “Acredito que foi Deus quem tocou o coração deles, e fez com que esse dinheiro fosse o suficiente. Quando as minhas forças se esgotarem, eu correrei para o nosso lugar”, diz.

“Lembro de uma vez, quando eu tinha 16 anos, um pastor veio profetizar sobre mim, dizendo que um dia eu iria escrever músicas para Deus, e ele me daria condições de gravar, e ele com certeza deu”, finaliza.

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