Instrutor de surfe dedica parte do tempo para ensinar o esporte a crianças com deficiência e especiais | Santos e Região

O instrutor de surfe Hiego Rodrigo Gomes Pasquali, de 39 anos, concilia as aulas particulares que ministra com um projeto social, que desenvolve na escola dele, com o objetivo de ensinar o esporte e melhorar o desempenho e o desenvolvimento de crianças com deficiência ou portadoras de necessidades especiais, em Itanhaém, no litoral de São Paulo (veja vídeo acima).

Ao g1, Pasquali explicou que abriu a escola particular de surfe, mas que sempre teve vontade de aliar o trabalho a alguma causa social, e a partir disso, surgiu o ‘Projeto Surfar’. “Hoje, tenho alguns alunos autistas, com síndrome de Down, e o Arthurzinho, que tem amputação”.

Segundo ele, muitas pessoas o ajudam, e algumas empresas apoiam o projeto social. É o caso do Arthur, que conseguiu, por meio da escolinha, um convênio anual de prótese aquática, e outra para uso na rotina normal.

Autista, Emilly participa do Projeto Surfar há 4 meses em Itanhaém, SP — Foto: Arquivo Pessoal

Para se especializar, o instrutor de surfe está cursando educação física. Ele explica que as aulas tradicionais são realizadas na Praia do Sibratel, e que as aulas com simulador são realizadas na pista de patinação na Praia do Sonho.

“O surfe skate, ou simulador de surfe, foi inventado para quando o mar não tiver onda, e a pessoa quer simular o surfe. É um skate que tem a parte da frente solta, você consegue efetuar todo o movimento que seria feito na água no asfalto”, diz.

O equipamento, que a escola conseguiu graças ao patrocínio de uma empresa de simuladores, é usado com alunos iniciantes, para que eles aprendam a se movimentar antes de irem com a prancha ao mar. “Para os alunos que têm dificuldades, o simulador de surfe fica mais fácil de ensinar o movimento do que dentro da água. O aluno aprende do modo correto”.

Segundo o instrutor, muitos iniciantes não têm equilíbrio na prancha, e o surfe skate ajuda a adquirir isso, além de força, que também é algo importante na prática do esporte. “É um surfe no asfalto, que a gente consegue usar para passar técnica, corrigir, fortalecer articulações e movimentação. O surfe skate está ajudando muito na parte de coordenação motora e desenvolvimento”.

Arthur usando simulador durante aula de surfe em Itanhaém, SP — Foto: Reprodução/Instagram

Pasquali afirma que o desempenho das crianças que frequentam o projeto social é muito positivo. “Pegar uma criança que tem necessidade especial, colocar em cima de um simulador, tem ajudado muito na parte de desenvolvimento e coordenação motora, porque são crianças que precisam muito”, diz.

“Tenho um aluno que, desde a primeira aula, amou andar de simulador. O pai dele traz ele de Mongaguá para Itanhaém para fazer a aula. São coisas que a gente não tem como explicar muito, é uma energia muito boa. É maravilhoso ver uma criança que não saía muito de casa começar a fazer a aula, querer vir e pedir isso para o pai”, conta.

Após um período de aulas no simulador, o treinador inicia a prática no mar. Ele explica que já queria ter colocado o Arthur na água antes, pois é uma criança que tem muita força de vontade, mas que era necessário aguardar a chegada da prótese aquática.

“Conheci o Arthurzinho em uma aula, quando eu era voluntário da prefeitura. Me apeguei, falei com os pais dele para trazerem ele no projeto, só que, no começo, não tinha como colocar ele na água, por causa da prótese. A que ele usava não permite entrar na água. Comecei a correr atrás das empresas e consegui a doação da prótese aquática”, lembra.

O profissional reforça que poderia usar as aulas do projeto social para ganhar dinheiro, mas que é importante dedicar um pouco de tempo e conhecimento para quem necessita. “Na escola particular, é onde tiro o meu sustento do dia a dia, para sobreviver. O projeto social é muito importante na minha vida. Saber que você está ajudando crianças que precisam de um apoio e ajuda dentro do esporte, para a recuperação delas, é uma coisa gratificante”, diz.

“É uma coisa que alegra o coração quando você vai dar a aula, independentemente dos problemas, é uma coisa que dá energia, fazer isso com amor. Tanto no projeto social quanto nas aulas particulares, faço isso com muito amor, por gostar de fazer, não meço esforços, corro atrás e ajudo”.

O projeto social, até então, foi divulgado apenas no ‘boca a boca’, já que o profissional trabalha sozinho na escola. “Hoje, estou com um limite de alunos, abri algumas vagas, e elas já estão cheias. Eu quero abrir as portas para mais gente, estou procurando pessoas que possam vir trabalhar comigo, ou empresas que possam ajudar, porque é um projeto que está ajudando crianças que precisam”, conta.

“Estou procurando apoiadores que possam ajudar o projeto a crescer, com qualquer ajuda, ou até mesmo um espaço físico para a gente ter. A gente utiliza uma pista de patinação que é aberta. Há algum tempo roubaram todos os fios de energia, ficou escuro, e não pude dar aula à noite. Às vezes chove, e não dá para dar aula”, explica.

A dona de casa Vanessa Soares da Silva afirmou ao g1 que o filho Arthur Emilio Cano, de 5 anos, nasceu com hemimelia fibular, e por isso precisou fazer uma amputação com 1 ano e 3 meses. “Aí, com 1 ano e 6 meses, ele já começou a usar prótese, e depois disso não parou mais de andar”.

Instrutor de surfe dedica parte do tempo a ensinar o esporte para crianças com deficiência ou especiais — Foto: Reprodução/Facebook e Marcelo Bomfim

A mãe conta que Arthur passou por um processo de se rejeitar, pelo fato de usar prótese, e de outras crianças questionarem o motivo de ele não ter perna e pé. “A fisiatra que acompanha ele pediu para que a gente colocasse ele para praticar esportes, que ajudaria no desenvolvimento dele”, conta.

“A questão do esporte para o Arthur foi boa, porque está ajudando ele a se aceitar melhor, e ver que, mesmo ele sendo diferente das outras crianças, ele consegue fazer tudo o que as outras crianças fazem”, afirma.

Para ela, é uma satisfação grande ver o desenvolvimento do filho. “É uma coisa que ele gosta, e tem sido bom. A gente vê que ele está esquecendo um pouco aquela coisa de ser diferente das outras crianças. É uma superação para a gente, que não imaginou que ele fosse fazer tudo o que faz hoje”, comemora.

“Quando descobri que ele iria nascer com malformação, me desesperei, achando que ele não fosse andar, não fosse empinar pipa e jogar bola, mas hoje, vendo tudo que ele faz, é muito gratificante. Apesar da dificuldade dele, ele faz tudo o que outras crianças fazem”, diz.

A aposentada Zenira Peixoto de Lima, de 49 anos, é mãe da autista Emilly Vitória Peixoto de Oliveira, de 12 anos. Ela contou ao g1 que a filha está há quatro meses no projeto, e que, desde então, melhorou 100% a autonomia, o equilíbrio e a comunicação.

“O projeto está ajudando muitas famílias, mas não paro com minhas tentativas para garantir que todas as crianças portadoras de deficiência tenham acesso ao projeto. Crianças com deficiência não têm o mínimo para o desenvolvimento. O Hiego é um anjo que Deus enviou no meio do caos, o projeto chegou na hora certa’, finaliza.

VÍDEOS: g1 em 1 Minuto Santos


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