Funcionário que teve parte do corpo queimado após descarga elétrica ganha indenização na Justiça no litoral de SP | Santos e Região

Um funcionário de uma concessionária de veículos ganhou uma indenização na Justiça após um acidente de trabalho em São Vicente, no litoral de São Paulo. Ele sofreu uma descarga elétrica de alta tensão e ficou com parte do corpo queimado, perdendo o movimento de uma das mãos. Com sequelas físicas e psicológicas, ele precisou parar de trabalhar e não consegue esquecer o dia do acidente.

Luiz dos Santos, de 62 anos, trabalhava na concessionária Honda como auxiliar de manutenção. Em novembro de 2019, ele foi direcionado para fazer alguns serviços na filial da empresa em São Vicente e foi vítima de um acidente de trabalho.

O funcionário foi obrigado a subir em um elevador elétrico para a lavagem de um totem em uma altura de 15 metros. Na época, ele contou à família que não queria realizar o serviço pois na parte de trás do totem havia um poste com fios expostos e desencapados. Além disso, entre o totem e o poste havia um espaço muito estreito e ele teria que jogar água no local para lavá-lo.

Mesmo assim, ele contou que foi realizar o serviço e subiu no totem com um ajudante. Luiz levou uma descarga elétrica de 13.800 volts e o corpo dele ficou em chamas. O auxiliar de manutenção foi socorrido e permaneceu internado no hospital por dois meses.

A filha dele Morgana Morais conta como encontrou o pai no hospital, momentos após o acidente. “Meu pai estava na sala de emergência, chorando muito, gemendo de dor, porque ele estava com o corpo totalmente queimado: a região da cabeça, orelhas, pescoço, tórax, os dois braços, o abdômen, o glúteo e as partes íntimas”.

Homem trabalhava como auxiliar de manutenção — Foto: Arquivo Pessoal

Luiz perdeu o movimento do braço esquerdo e massa corporal, além de sofrer o abalo psicológico, provocado pelo acidente. O laudo médico apontou que o funcionário teve uma queimadura grave no antebraço esquerdo, além de estar deprimido, choroso e relatar que não conseguia dormia, porque sonhava com o acidente, e tinha medo de acender uma luz.

Com o dano físico e psicológico, Luiz ficou incapacitado de exercer o trabalho. Com isso, ele deixou de receber o salário e passou a contar apenas com um auxílio previdenciário, necessitando da ajuda financeira de amigos e parentes. Em janeiro deste ano, foi concedida aposentadoria por invalidez a ele, decorrente do acidente do trabalho.

“Ele tem sequelas. Ele fez acompanhamento com fisioterapeuta e terapeuta ocupacional, dizem que não tem melhora. É só para não atrofiar a mão esquerda, porque queimou os nervos. Ele sente muita dor quando esfria. A mão esquerda apresenta deformidade e o corpo não consegue manter irrigado de sangue, é sempre uma mão gelada e a característica visual não é bonita”, conta Morgana.

Acidente aconteceu durante dia de trabalho em concessionária em São Vicente (SP) — Foto: Arquivo Pessoal

Em 2021, ele entrou com um processo contra a concessionária. Segundo o advogado dele, Alexandre Henriques Correia, a empresa não ofereceu as condições de segurança necessárias para o funcionário executar o serviço.

“Além de não ter participado de nenhum treinamento para o trabalho em altura, no momento do acidente o Luiz não dispunha de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), não estava preso a qualquer sinta ou presilha de altura, não possuía calça e jaleco antichamas, nenhum tipo de capacete e óculos, entre outros que deveriam ser entregues pela empresa”, explicou o advogado. “Isso o que nos revoltou. Ele sinalizou que tinha risco e mesmo assim ele foi obrigado a fazer”, reclama a filha.

Morgana conta que a empresa, em momento algum, procurou a família ou prestou algum apoio ao pai dela. Todo o tratamento médico foi realizado pelo SUS.

“A empresa precisa ser responsabilizada e, infelizmente, a maneira de eles sentirem isso é através do bolso. Para eles enxergarem o perigo, saberem que a pessoa que está realizando aquela atribuição, atrás dela existe uma família, que vai perder um ente querido. Ele é o amor de alguém. Isso não pode se repetir”

Uma audiência foi realizada no dia 1 de setembro de 2022, quando foram coletados os depoimentos de Luiz e de duas testemunhas. O juiz do trabalho Athanasios Avramidis julgou procedente os pedidos do auxiliar de manutenção e condenou a empresa ao pagamento de indenização por danos patrimoniais no valor de R$ 31.344,80.

O juiz também reconheceu que o autor recebia R$ 500 mensais pagos por fora e condenou a empresa ao pagamento dos reflexos. Ele também determinou que a empresa realize o pagamento do adicional de insalubridade no grau máximo, no valor de 40% do salário-mínimo nacional, excluindo os períodos de afastamento previdenciário.

A empresa condenada pode recorrer ao Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região. Porém, o advogado família já antecipa que irá recorrer para majorar as indenizações. “Não achei os valores justos e condizentes com o ocorrido”, disse.

Já a filha Morgana fala que o pai chora sempre que falam sobre o caso, por isso, ele não quis falar com a reportagem. “Ele é meio depressivo, assustado, ao mesmo tempo agitado, não aceita a sequela que ficou na mão e as sequelas psicológicas. Isso acaba mexendo com todos nós da família”, conta a filha. Para a família, o resultado foi positivo, porém o valor não foi o esperado. “Eu pergunto: quanto vale uma vida?”

O g1 entrou em contato com a concessionária Honda, mas não obteve um posicionamento da empresa sobre o caso até a última atualização desta reportagem.

VÍDEOS: g1 em 1 minuto Santos

Ex-funcionário da Honda entra na Justiça após acidente no trabalho — Foto: Arquivo Pessoal


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